«Sonho com um campo de basebol na Madeira»
Mais de 120 luso-venezuelanos participaram num torneio no passado domingo na freguesia de São Martinho, Funchal, para reativar este desporto na ilha e manter a ligação às suas raízes
Por Correio de Venezuela -
18 de Abr de 2019
0
1327
Delia Meneses
A Associação de Basebol da Madeira encarregou-se de espalhar a palavra entre os adeptos, e as redes sociais também divulgaram o convite para o Torneio Venezuela Portugal. Mais do que um evento desportivo, foi um encontro de dezenas de famílias luso-venezuelanas, que partilharam a música, a alegria e a bem-disposta vivacidade criolla, e que se reuniram graças ao desporto-rei venezuelano: o basebol.
O torneio, que se realizou no campo do Exército (RG3), na freguesia de São Martinho, e que reuniu cerca de 120 pessoas, foi um domingo em família para «matar saudades» e para começar a dar forma a um sonho partilhado por muitos dos presentes: ter um campo de basebol na Madeira.
O primeiro a verbalizar este anseio foi Pedro Rodolfo Freitas, fundador da Associação de Basebol da Madeira, que, juntamente com a sua esposa, deu vida a esta organização no ano de 2004. Eram bons tempos para esta modalidade na ilha, pois entre 2004 e 2009 realizaram-se inúmeros torneios no campo de basebol do Campanário, espaço que hoje se encontra abandonado. Nestes cinco anos dourados tornaram-se tantos que foi necessário criar equipas — chegaram a formar-se até oito, entre as quais: Funchal, Curral das Freiras, Caciques, Campanario, Calheta e Montecristo.
Um pouco por causa da crise, esta prática acabou por cair no esquecimento. Mas algo está a mudar fruto da força de vontade de alguns amantes da modalidade: Freitas, Gonzalo Mendez e Carlos Sousa. O torneio do passado domingo pretende reativar a disciplina na ilha com o fôlego que lhe podem dar os milhares de luso-venezuelanos que chegaram à Madeira nos últimos anos.
No campo do RG3 encontraram-se famílias recém-chegadas e outras com vários anos na Região. Nesse dia, formaram-se espontaneamente quatro equipas que participaram em dois jogos de três innings cada um. Foram distribuídas 60 medalhas.
O «turno do batente» coube primeiro às crianças, como Valeria Aguiar, que chegou há três meses à Madeira e anda no quinto ano. «Fazia-nos falta sentir o ambiente venezuelano, por isso viemos». Ao seu lado estava María Paula Cabrera, de 12 anos, que já está na ilha desde 2015. «O meu pai disse que queria jogar basebol para 'matar saudades' da sua terra natal».
Johen Cáceres está na Madeira desde setembro de 2018, vindo de Ciudad Bolívar. No domingo dava indicações ao seu filho Samuel, de 9 anos, sobre como lançar a bola. «Ele jogava na Venezuela e não quero que se esqueça».
Os pais de Gabriel estavam mais entusiasmados do que ele. O pequeno, de seis anos, parecia desorientado, não sabia como segurar a bola ou a luva; era o seu primeiro contacto com o desporto-rei da Venezuela e não se saiu muito bem. «Ele nasceu na Madeira, mas queremos que mantenha a ligação às suas raízes e, sobretudo, a esta modalidade que faz parte da nossa idiossincrasia».
O evento foi a oportunidade para anunciar a reativação da Associação de Basebol da Madeira, cujo rosto visível, Freitas, pediu apoio às instituições para conseguir que o basebol tenha um espaço oficial na Região Autónoma, um campo para treinar e organizar torneios. «Queremos trabalhar em duas frentes: formar equipas de adultos e participar na realização de aulas de formação para as crianças das escolas da ilha».
É uma aspiração partilhada por João Inácio Abreu, professor de Educação Física da Escola Secundária Jaime Moniz, uma das poucas instituições educativas onde se pratica esta disciplina há quinze anos. «O basebol faz parte do programa académico e os alunos gostam bastante porque o veem muito na televisão e nos filmes. A isto soma-se a presença dos venezuelanos, que trazem a paixão por este desporto. Na Secundária Jaime Moniz há 2900 alunos e todas as turmas jogam basebol».
Abreu destaca que, para promover esta modalidade, o mais importante é a formação, pois é necessário começar pelas bases. Por isso, a Associação de Basebol da Madeira, através do treinador Carlos Sousa, dará aulas de formação na Escola Jaime Moniz. A ideia é replicar esta iniciativa noutras escolas da Madeira, «além de realizar eventos como este não só no Funchal, mas também nos outros municípios da ilha. Também é importante preparar treinadores e árbitros», comentou Abreu.
Freitas convidou todos os interessados em aprender e praticar basebol na ilha a comparecerem todos os domingos, das 12h às 13h, nos treinos que se realizam no campo de futebol sintético em São Martinho, ao lado do cemitério. Lançou também um desafio às mulheres para que se animem a integrar uma equipa de softbol.
Ana Cristina Monteiro, presidente da Venecom e uma das organizadoras da atividade, juntamente com a Junta de Freguesia de São Martinho, precisou que o objetivo é fomentar a integração e o fortalecimento da cultura e dos costumes venezuelanos na Madeira. «Assim como os nossos pais levaram as suas tradições para a Venezuela para fazer sentir a sua terra, agora queremos fazer o mesmo na ilha».
O material de jogo foi cedido pela Escola Jaime Moniz e a Associação de Basebol da Madeira encarregou-se de marcar o campo com cal. Para muitos dos presentes, o basebol era o desporto da sua infância e juventude, pelo que a tarde esteve cheia de boas recordações e desejos de que a jornada se repita em breve.

