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Basebol português ganha inesperado espaço na Europa - 1999 - Jornal Record

 27 junho 1999 - 17:35

Basebol português ganha inesperado espaço na Europa

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UM “HOME-RUN” de Madonna acabou por catapultar o basebol português à ribalta. Parece ficção. No entanto, a mais febril mania norte-americana espalhou-se por Portugal através do grande ecrã, na película de Penny Marchall, intitulada “Liga das Mulheres”, onde a extravagante “pop star” encarna o papel de uma jogadora irreverente e talentosa dos anos 40. Embora o filme retrate uma versão “soft” do tradicional basebol, a ideia inflamou os portugueses, que hoje contam com 42 pólos difusores do desporto de Norte ao Sul do País e uma mão-cheia de internacionalizações, entre elas uma participação no Campeonato da Europa Série B (1998), em que a selecção nacional contabilizou três vitórias e um 13º lugar final.

Debitar toda a projecção observada no basebol nacional na produção cinematográfica americana, no entanto, é "injusto". "Digo isto porque o basebol português surgiu em três frentes: a primeira frente manifestou-se entre a comunidade luso-venezuelana; a segunda, em duas instituições de ensino, no Seixal e Coimbra; e a terceira, nas universidades", explica Sérgio Costa e Silva, um ex-jogador hoje presidente da Federação Portuguesa de Basebol e Softbol (FPBS). A partir desta tríade difusora da modalidade, que culminou no reconhecimento oficial da FPBS, em 23 de Fevereiro de 1996, muitos lançamentos foram feitos no campo do basebol nacional, nomeadamente "um inesquecível e importante I Encontro Nacional de Basebol e Softbol, que contribuiu para o desenvolvimento de várias equipas" e o “Auto de Basebol nas Ruas de Lisboa”, que nada mais foi que um jogo-demonstração do que era o desporto, nos relvados de Belém, a aproveitar o mediatismo da película de Marchall.

Os números que envolvem o desporto, actualmente, não chegam a fazer levantar a assistência das bancadas, mas alguns arremessos ultrapassam em muito outras modalidades dotadas de estatuto de Utilidade Pública Desportiva. "Estamos a crescer muito", enfatiza Sérgio Costa e Silva. De zero a dez, o basebol português pode ser sumariamente traduzido assim: nenhum campo específico para a prática da modalidade ("temos apenas em Oliveira de Azeméis um espaço adaptado"); um jogador profissional ("Carlos Messias"); quatro equipas de softbol; oito equipas na categoria cadetes; nove em seniores; 18 anotadores filiados na FPBS; 22 árbitros; 25 escolas a desenvolver um programa na modalidade; 40 treinadores reconhecidos pela FPBS; 42 pólos difusores; 491 praticantes ("número apurado em 98").

A máquina de calcular da jovem Federação, entretanto, só está programada para trabalhar na operação de multiplicar e estes recordes tendem a ser batidos, segundo o seu dirigente máximo. "Estou certo de que ao fim desta temporada teremos uns 700 atletas federados. As nossas prioridades para 99 são investir na estrutura federativa e nas condições administrativas (a FPBS ainda não tem uma sede); trabalhar nos escalões de formação e desenvolvimento; e, por último, promover a formação de agentes desportivos", enumera Sérgio Costa e Silva. Ou seja, para além de "criar alicerces para a casa", a ideia é de que cada clube tenha pelo menos duas equipas, uma sénior e outra cadete, assistidas por sua vez por profissionais credenciados. A “multiplicação dos pães” irá beneficiar também o palmarés nacional, pois, através de "uma estratégia de desenvolvimento, Portugal deverá entrar para o grupo A europeu -- uma espécie de ‘grand slam’ -- em 2006".

O protocolo de cooperação estabelecido entre a Major League (liga profissional americana) e Portugal, no início dos anos 90, pelos primeiros impulsionadores deste desporto em Portugal, Fernando Lucas e José Andrade, sofreu um reforço em 1996, o que, para o presidente, está a impulsionar ainda mais o seu plano de incremento da modalidade. “A maior prova disto foi o assessoramento técnico dado à equipa nacional com vistas ao Europeu B de 98”, o conceituadíssimo técnico italiano Giuseppe Guilizzioni, ex-seleccionador da Itália e Espanha. "Ele é o único técnico europeu credenciado na Major League e um dos mais reconhecidos mundialmente; e por termos este acordo esteve connosco durante dois anos", explica o presidente da FPBS o bom acompanhamento que a equipa das quinas teve, acrescentando que, além de 'Beppe', alcunha do italiano, o grupo contou ainda com o preparador espanhol Lorenzo Garcia e os técnicos nacionais Pedro Sequeira (director), Luís Simas e António Nadas (adjuntos).

GRAVADO NA RETINA

Foi no meio de uma grande balbúrdia e alvoroço que Portugal se estreou numa competição internacional de grande envergadura. "Não posso esquecer a nossa bandeira sendo ostentada na Áustria, onde decorreu o último Campeonato da Europa Série B. O nosso primeiro jogo foi o de abertura de todo o evento e defrontámos os anfitriões, o ‘team’ austríaco. Foi uma grande pressão", relembra Sérgio Costa e Silva. A selecção nacional tinha um objectivo definido para aquele campeonato: ganhar pelo menos um jogo. A modesta ambição dos “maçaricos” acabou por surpreender. "Tudo vai ficar para sempre gravado na minha retina", afirma o jovem dirigente, estudante de Engenharia.

"Começámos o jogo de abertura bem e perdemos por pouco", diz o nosso interlocutor. Isto porque os 13-7 do “placard”, frente aos donos da casa, não foi, nem de perto, o pior resultado do evento. No quinto jogo da segunda fase, por exemplo, a Jugoslávia perdeu por 14-0 para Portugal e a Finlândia foi batida por 14-6. O país número 3 do “ranking” B de 1996, a Lituânia, foi uma espinha na garganta da selecção nacional: "Foi difícil de digerir. A lutar pelo nono lugar, a nossa equipa entregou o jogo por 4-3, na última entrada (‘inning’)". No balanço final a selecção das quinas terminou em 13º lugar na competição, que se realiza de dois em dois anos, a intercalar com o Europeu Série A, onde competem apenas doze países dos 37 que hoje aderem ao basebol na Europa. "Com mais experiência e calma estaríamos entre os oito primeiros", assegura o presidente da FPBS.

NA "DISNEYLÂNDIA"

A última concentração (de um total de seis) feita pela equipa nacional, com vistas ao evento austríaco, aconteceu no que se pode chamar a Disneylândia dos amantes europeus do basebol, a Itália. Foram apenas sete dias, contudo, sob condições extraordinárias de treino. "Era a primeira vez que a equipa pisava um campo específico de basebol -- em Portugal só temos um campo adaptado, que fica em Oliveira de Azeméis -- e desfrutava de equipamentos de preparação como as 'pitch machines', para lançamento de bolas, entre outros, os quais nunca havíamos tido contacto", afirma Sérgio Costa e Silva.

Antes de chegar ao imenso “playground” italiano, os seleccionados padeceram no paraíso para conseguir uma vaga na selecção. Uma primeira triagem foi feita por ocasião da Taça Galaico Portuguesa, este sim o primeiro teste internacional para os basebolistas portugueses. Deste evento foram apurados 21 atletas, entre 48 convocados, e destas duas dezenas apenas sete tiveram passaporte carimbado para a Áustria com escala em Itália.

Mas quem é adepto do basebol em Portugal é-o por puro gozo, porque profissionalização ainda é coisa rara, ou melhor única. "Temos apenas um jogador profissional que se chama Carlos Messias e é de origem venezuelana". Os restantes 491 federados são pessoas comuns, doutores, engenheiros, trabalhadores em geral, que buscam a emoção de um desporto que não tem nada de elitista mas que propicia grande euforia e espírito patriótico quanto outras modalidades em que o esférico passa pelos pés do atleta.

CADETES PROMISSORES

“No caminho certo, mas com algumas arestas a aparar.” É assim que o actual director técnico nacional da Federação Portuguesa de Basebol e Softbol, Luís Simas, avalia a actual fase pela qual este desporto tipicamente norte-americano está a passar em Portugal. "O nível do basebol está bom, dado os poucos anos que estamos a trabalhar a sério. Já superámos largamente as nossas expectativas e uma prova disto foi o mais recente resultado obtido pelo clube português Tigres de Loulé, que participou na Taça da Confederação Europeia de Basebol, finalizando em segundo lugar no ‘ranking’ da Divisão B.”

Luís Simas é um adepto ferrenho de basebol desde 1995, "época em que cheguei a jogar nos Pioneiros do Seixal". O seu trabalho como director técnico é recente, pois, no ano passado, actuou como adjunto de Pedro Sequeira na preparação da equipa nacional para o Campeonato da Europa de 98. Tal como o presidente da FPBS, Luís Simas afirma que os objectivos dessa delegação eram apenas conhecer o basebol europeu e se possível alcançar uma vitória. "Tivemos três vitórias e três derrotas, o que demonstra que atingimos em muito as nossas metas", reforça o director técnico.

Quanto a destacar algum talento nacional que tenha despontado durante este Europeu, Simas prefere não citar nomes: "Neste momento, todos os que foram escalados para a selecção têm condições para lá continuar. Não estamos naquela fase de enaltecer prestações individuais, porque estão todos muito no mesmo nível e a equipa funciona pelo seu todo." De acordo ainda com este responsável, novos talentos estão a surgir no cenário do basebol nacional, nomeadamente, na categoria cadetes, "o que porventura poderá levar à promoção de três deles no caso de uma futura convocação da selecção". Tal medida, prossegue o director técnico, "beneficiaria o entrosamento dos mais jovens com o sistema competitivo internacional”, para além de ser uma importante medida rumo a 2006, quando os dirigentes pretendem ver Portugal na elite do basebol europeu.

OS CLUBES PORTUGUESES

Feira Basebol Clube -- Stª Maria da Feira

Associação Académica de Coimbra (campeão nacional e da Taça de Portugal em 1997)*

Paz Basebol Clube

Gaia Basebol Clube

Porto Basebol Clube

Basebol Clube Tigres de Loulé (campeão nacional e da Taça de Portugal em 1998)*

Lisboa Basebol Clube

Associação Académica da Universidade de Aveiro

Latinos da Bairrada Basebol Clube

* Foram levados em consideração apenas os campeonatos nacionais homologados pela Federação Portuguesa de Basebol e Softbol. O primeiro circuito a nível nacional aconteceu em 1994 e foi vencido pelos Peloteros de Az, equipa hoje intitulada Paz Basebol Clube.

REGRAS DO BASEBOL

1. Cada equipa ataca e defende alternadamente. A equipa que defende entra em campo com nove jogadores. A que ataca conta apenas com um, o batedor.

2. A partida é disputada em nove “innings” (entradas). Um “inning” é formado por um ataque e uma defesa para cada formação em jogo. A mudança acontece quando a equipa que está a defender consegue eliminar três batedores adversários.

3. Não existem empates. Se ao final dos nove “innings”, o jogo estiver empatado, outras entradas serão acrescentadas até ao desempate.

4. Uma equipa marca um ponto quando o batedor consegue percorrer o quadrado (chamado “diamond”) formado pelas quatro bases. A corrida para as bases começa quando o “batter” (batedor) devolve a bola arremessada pelo “pitcher” (lançador) dentro da área de jogo. O batedor corre até que um defensor consiga devolver a bola para algum de seus companheiros que ficam posicionados junto às bases.

5. Se o batedor não conseguir completar as quatro bases na mesma jogada, ele pára naquela que tiver alcançado e um novo batedor entra no jogo.

6. O batedor também consegue um ponto quando manda a bola para fora do campo de jogo. E caso consiga completar as quatro bases numa mesma jogada dá-se um “home run”.

7. Um batedor é eliminado quando o lançador manda três bolas correctamente e ele não consegue rebater. Quatro lançamentos errados colocam o batedor automaticamente na primeira base.

8. O batedor também é eliminado quando um dos defensores pega a bola rebatida antes que ela caia no chão; quando os defensores conseguem chegar à base em disputa, com a bola, antes do atacante; ou quando um defensor toca o atacante com a bola antes que ele alcance uma base.

BASEBOL VERSUS SOFTBOL

1. O campo de softbol é menor. Mede dois terços do campo de basebol.

2. A bola é mais pesada: 141.8 a 148.8 gramas e 30 a 31 centímetros no basebol e entre 180 e 200 gramas e 22.9 a 23.5 centímetros de circunferência no softbol.

3. A equipa de basebol tem nove jogadores, um a menos que a de softbol.

4. No basebol, o arremesso é sempre por cima. No softbol, a bola é lançada por baixo.

5. O basebol é praticado exclusivamente por homens, enquanto o softbol é predominantemente praticado por mulheres.

MARIA LUCIA MAGALHÃES

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